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Sistema Agroflorestal Multiestrata e a Legislação Ambiental Brasileira: desafios e soluções

RESUMO
Imerso no universo de pesquisa das comunidades tradicionais associadas à Cooperafloresta – associação de agricultores agroflorestais localizada nos municípios de Adrianópolis e Bocaiúva do Sul/Paraná e Barra do Turvo/São Paulo –, este artigo apresenta uma discussão dialética sobre os desafios e soluções da vigente legislação ambiental brasileira para a prática dos sistemas agroflorestais. Observa-se que o contexto atual é a pouca presença de políticas ambientais e regulamentação da legislação que os favoreçam no país. Para identificar e descrever o arcabouço legal das agroflorestas na lei, a metodologia foi baseada em um estudo de caso, revisão bibliográfica e observação participante. Com base nas experiências agroflorestais da Cooperafloresta, aponta-se que os principais protagonistas da conservação ambiental são as famílias agricultoras praticantes de agroflorestas. Portanto, defende-se a formação de políticas públicas como as do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) e o Sistema Participativo de Garantia (SPG) para a fixação, valorização, empoderamento e melhoria da qualidade de vida dessas famílias para a superação da problemática socioeconômica-ambiental. Conclui-se que há arcabouço legal para a compatibilização do uso de sistemas agroflorestais com a conservação ambiental e o uso de práticas agrícolas adequadas aos objetivos das áreas legalmente protegidas.

Palavras-chave: Cooperafloresta; conservação ambiental; políticas públicas.

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Sistemas Agroflorestais

 

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Hipótese da permanência: a conservação ambiental alcançável com o sistema de agrofloresta

Artigo apresentado no IX Congresso Brasileiro de Sistemas Agroflorestais

RESUMO

Este trabalho sugere a permanência de famílias agricultoras praticantes de agroflorestas agroecológicas, como um caminho para alcançar a conservação ambiental em áreas protegidas pela lei, com base em experiências de sustentabilidade ambiental praticadas com o Sistema Agroflorestal (SAF) da Cooperafloresta. A Cooperafloresta (Associação dos Agricultores Agroflorestais de Barra do Turvo e Adrianópolis) é formada em sua maioria por comunidades tradicionais e está inserida no bioma da Mata Atlântica. Localizada no Vale do Ribeira, a sudeste do estado de São Paulo, região reconhecida pelo menor Índice de Desenvolvimento Humano – IDH do estado. Essa região foi transformada no Mosaico de Unidades de Conservação do Jacupiranga, que inclui além do Parque Estadual, Áreas de Proteção Ambiental e Reserva de Desenvolvimento Sustentável. O principal objetivo deste estudo foi discutir a eficácia das políticas de preservação de se proibir, ou restringir severamente, o uso de áreas protegidas pela lei, como Áreas de Preservação Permanente (APP´s), no que diz respeito ao seu manejo, conservação e a permanência das populações que ali habitam, sobretudo, nas áreas onde são feitas agroflorestas. A metodologia foi baseada em um estudo de caso, observação participante e revisão bibliográfica. Por fim, conclui-se que o sucesso da conservação ambiental depende de práticas agrícolas adequadas aos objetivos das áreas legalmente protegidas, juntamente com políticas públicas para a fixação, valorização, fortalecimento e melhoria da qualidade de vida das famílias de agricultores. Nesse sentido, as práticas agroflorestais indicam o potencial para contribuir efetivamente para a superação da problemática socioambiental e econômica.

Palavras-Chave: Sistemas Agroflorestais, Conservação Ambiental, Políticas Públicas e Legislação Ambiental Brasileira.

Martin Ewert

“Água se planta? Não têm nenhuma dúvida, água se planta!”

O Agenda Gotsch segue com sua proposta de buscar histórias reais de experiências que estão dando certo. Neste episódio, apresentamos uma experiência de agrofloresta em grande escala que está acontecendo no interior de São Paulo, na Fazenda da Toca

Agroflorestas são florestas plantadas para fins específicos, com toda a biodiversidade, dinâmica e estrutura de uma floresta natural

 

Escrito por Marsha Hanzi   – Fonte: http://www.marsha.com.br/index.php/agroflorestas

A adoção do modelo agroflorestal é muito mais profundo do que uma simples troca de modelo agrícola: é a mudança na maneira de como nos relacionamos com a Natureza. Enquanto a agricultura convencional anule o ecossistema, impondo um modelo pobre (de um ou dois elementos), totalmente divorciado da realidade local, uma agrofloresta imita o ecossistema local, englobando dezenas ou até centenas de elementos. É um sistema de produção tão parecido quanto possível com a forma original que a Natureza encontrou para aquele lugar, ao longo de milênios. A agrofloresta se baseia no RESPEITO, não somente para as pessoas que consumirão os produtos, mas sobretudo para todas as formas de Vida que ali habitam. O homem passa a cuidar de um sistema, que, como resultado, o presenteia com muitos produtos: frutas, folhas, raízes, madeiras, essências, carne, mel.

Uma vez implantada, uma agrofloresta exige um mínimo de cuidados e nenhum insumo de fora, tendo a mesma estabilidade de uma floresta nativa. Garante a sustentabilidade ecológica e financeira do agricultor (agroflorestador)

É uma mudança radical, sobretudo no estilo de vida. A experiência mostra que esta mudança traz mais prazer e orgulho para o homem do campo, já que, a cada ano que passa, a terra fica melhor, mais rica, produtiva, bela e cheia de vida.

Qualidade de Vida com Agroflorestas

A agricultura é vista como um “avanço” da civilização quando de fato marcou o começo do fim, provocando destruição dos ecossistemas e estratificação da sociedade entre aqueles que eram donos da terra e aqueles que os serviam (um conceito desconhecido entre os povos coletores). Marshall Sahlins, no seu artigo “A Sociedade Afluente Original” (The Original Affluent Society) cita pesquisas que mostram que os povos coletores trabalham na média de três horas por dia para conseguir uma vida satisfatória, enquanto que o agricultor vizinho trabalha oito horas para o mesmo efeito. (A mulher universitária norte-americana trabalha, na média, 70 horas por semana!) De fato, uma agrofloresta, uma vez implantada, possibilita um estilo de vida parecido à vida dos coletores, deixando amplo tempo livre para desenvolver outros aspectos da vida (arte, atividades sociais). (Os primeiros anos exigem muito esforço pela enorme quantidade de elementos que este sistema exige, na média de 30.000 plantas por hectare).

É importante ressaltar que uma agrofloresta “atrai” e limpa a água, revertendo à tendência mundial de ressecamento e assoreamento. Se o desmatamento resseca o clima, logicamente o reflorestamento re-umidifica a paisagem. Ernst Götsch, um dos fundadores do movimento agroflorestal no Brasil, viu 17 riachos nascerem, uma vez sua agrofloresta estabelecida.

Como Implantar uma Agrofloresta

Para chegar a uma floresta, a Natureza passa por etapas bem definidas: na terra nua vem primeiro os capins e plantas baixas (muitas vezes floridas para atrair insetos e pássaros), depois os arbustos, seguidos por uma capoeira, depois disso vindo uma floresta seca (produtora de celulose), para finalmente chegar àquela floresta frondosa, úmida, luxuosa.

Ernst Götsch, de origem suíça, mas radicado no Brasil há 25 anos, adaptou a sucessão natural como estratégia para a implantação de agroflorestas. Usando todos os elementos da sucessão, ele encaixa uma fase dentro da outra no mesmo espaço de tempo, economizando assim muitos dos anos que a Natureza levará para criar uma floresta. Em termos práticos, ele consegue, em 3-4 anos, o que levará a Natureza 15 anos para conseguir. Isto se faz plantando todos os elementos juntos.

Assim, em vez de esperar uma fase se completar para depois começar outra, as fases se intercalam. Usa-se a poda para acelerar o sistema: quando uma fase (de plantas pioneiras, de arbustos, capoeira, etc.) está no auge, no ponto de começar a fase de declínio, estas plantas são podadas para deixar espaço para a próxima fase a surgir. Assim Götsch mantém o campo sempre “jovem”, em plena fase de crescimento.

Alguns dos princípios de trabalho mais importantes do sistema dele são:

  1. Não deixar nada velho no campo (que esteja no fim do seu ciclo), usando a poda seletiva para tirar estes elementos;
  2. Ocupar todos os estratos do espaço vertical na hora de implantar. Um espaço não ocupado enfraquece o equilíbrio do sistema todo;
  3. Ocupar todos os “estratos” temporais, plantando, juntos, elementos de todos os ciclos, desde o mais curto (mostarda) até o mais longo (jacarandá);
  4. Respeitar os sinais que recebe do sistema: quando trabalha sem vontade, é sinal que alguma coisa esteja fora de sintonia: o manejo está errado ou o momento inadequado (a fase de lua, etc.). O sistema está sempre dando “feedback” para você;
  5. As “pragas” e “doenças” são sinais de fraqueza no sistema, provavelmente por erros de manejo. Agradecemos estes “professores”, que nos ensinam como melhorar o nosso trabalho. Portanto não fazemos guerra contra ninguém. Não “combatemos” os insetos- tentamos entender o recado que eles nos transmitem. As formigas cortadeiras, por exemplo, têm o papel de juntar matéria orgânica para criar ilhas de fertilidade. Se acrescentarmos muita matéria orgânica ao sistema, as cortadeiras desaparecem. Continuam de fato presentes, como “faxineiras”, podando as plantas doentes, mas deixam de ser uma preocupação;
  6. Crie sistemas ricos em matéria orgânica, plantando elementos para este fim, desde capim de corte até árvores leguminosas que serão podadas de vez em quando;
  7. Confiar que a Natureza, no seu impulso inerente de criar condições para mais Vida no planeta, saberá levar qualquer sistema para frente. A nossa intervenção pode até acelerar o processo natural. Assim nós também criaremos mais condições para a Vida no planeta, através das estratégias específicas adotadas pela própria Natureza para cada lugar (que varia de um lugar para outro), que podemos copiar;
  8. Deixar as plantas nativas como parte do sistema. Assim se morrermos ou sairmos do lugar, em poucos anos o sistema nativo domina de novo, apagando os nossos traços, sem deixar cicatrizes.

Elementos de uma Agrofloresta

  1. Plantas de todos os ciclos: curto, médio e longo (desde rabanetes de 20 dias até árvores de ciclos de 200 anos);
  2. Plantas para cada estrato (baixo, médio, alto) para ocupar completamente o espaço vertical, em todos as fases evolutivas do sistema (plantas de tamanho baixo, médio e alto dos ciclos curto, médio, e longo);
  3. Plantas nativas;
  4. Leguminosas (plantas que fixam nitrogênio) de todos os ciclos e estratos, inclusive árvores leguminosas;
  5. Plantas medicinais;
  6. Plantas marginais àquele clima (que suportam mais chuva ou mais seca), para garantir a produção em anos de clima extremo;

Tipos de Agroflorestas
Toda agrofloresta terá os elementos acima citados, mas o conjunto pode visar um tipo de produção específico:

  1. De frutas;
  2. De forragem;
  3. De madeiras;
  4. Melíferas;
  5. Mistas, de auto-sustento;
  6. De climas diversos.
Vídeo

Agenda Götsch

O primeiro vídeo da série Agenda Götsch, apresenta algumas das ideias que fundamentam as agroflorestas e faz parte do Projeto “Agenda Götsch” disponível em:

http://agendagotsch.com/

Ernst Götsch é engenheiro florestal, Suíço e residente no Brasil desde a década de 80, atualmente uma das principais referências em agrofloresta.

Vídeo

Semeando um mundo de amor, harmonia e fartura

“Agroflorestar, apresenta a fascinante trajetória dos agricultores de Barra do Turvo, no Vale do Ribeira. Originalmente trabalhando com a derruba e queima, suas terras já estavam desgastadas. O filme mostra como a introdução do sistema agroflorestal revolucionou a vida de mais de 100 famílias. Hoje quase 17 anos depois do inicio do Cooperafloresta, através do projeto Agroflorestar, as ideias de uma agricultura florestal sustentável chegaram ao MST, aonde em áreas degradadas pela monocultura, florestas de alimentos estão sendo plantadas. Como Seu Zaqueu disse no filme: “o MST tem a tecnologia de ajuntar gente, e a Coopera tema tecnologia de ajuntar plantas.” De forma positiva o filme demonstra como podemos ter uma alternativa sustentável para a agricultura, sem destruir o planeta.”

Fonte: http://www.agrofloresta.net/2013/06/projeto-agroflorestar-semeando-um-mundo-de-amor-harmonia-e-fartura/

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A agricultura tem futuro?

Na minha curta trajetória agroflorestal, venho acompanhando algumas discussões acerca da importância da domesticação das paisagens e manejo florestais feito por povos tradicionais, índios ou quilombolas há muitas gerações e ressurgindo atualmente como prática dos Sistemas Agroflorestais no mundo todo. A permanência dessas populações na floresta garante a qualidade do ambiente, permite a estabilidade e auto-regulação do ecossistema e garante sua sobrevivência de forma libertadora e autonoma. Diante desses fatores, pouco se escreveu ou se pensou sobre as agroflorestas, mas algumas conclusões de pesquisas recentes apontam benefícios ecossistêmicos e socioambientais positivos. Defende-se que a agrofloresta é sinergia! Portanto, muito além da vida na floresta, existem as pessoas – homens, mulheres e crianças – nas agroflorestas que quando aliados, tem um poder de transformação econômico, social e ambiental de uma sociedade. Essas são minhas constatações como pesquisador. Entretanto, o que estou buscando nesse momento é refletir, de maneira geral, sobre o futuro das agroflorestas no Brasil.

Em um país tão grande, com tanta área agrícola degradada, qual é o futuro da agricultura?

Mais especificamente, estive pensando aonde é possível produzir agroflorestas nesse país? como é possível cultivar florestas de alimento no lugar onde se cultiva pasto ou monoculturas (que ocupam hoje grandes concentrações de terra)? Quando é possível a conversão agroecológica com agrofloresta em grandes áreas? Quanto de área é preciso para garantir alimento de qualidade – sem qualquer uso de veneno – por pessoa ou família? Quantas pessoas precisam para cultivar agroflorestas sucessionais por área?

De acordo com Daniel Jorge Habib, “Fazer agrofloresta no quintal de casa é trivial. A questão que temos que ter clara entre agronegócio x agroecológico é simples:
Como vamos promover a reconversão agroecológica de 4,5 milhões de famílias agricultoras (agricultura familiar no Brasil) se não temos ideia do que fazer com grandes áreas? O Brasil é um país com problemas de 3 zeros, como já disse o Ignacy Sachs. Tudo o que for pensado como “solução” para o Brasil, tem que ser pensado, avaliado, dimensionado com 3 zeros a mais. Se pensas um projeto para 300 famílias, tem que pensar no mesmo projeto para 300.000 famílias, e por ai vai. A título de exemplo: Imagine os projetos de implantação de agroflorestas nas Reservas Legais obrigatórias nas propriedades rurais inseridas no Bioma Mata Atlântica. Isso significa algo simples: 20% da área agrícola que está no Bioma deve ser convertida em agrofloresta. (…) quantas pessoas seriam necessárias para manejar, colher, transportar, comercializar e consumir esses produtos agroflorestais? Isso vai além da tecnologia, vai além da vontade política, vai além da organização social”.

E com base nesse diálogo, foram iniciadas algumas tentativas de mecanizar as agroflorestas em alguns lugares diferentes no Brasil. Embora mecanizar não significa manter o mesmo patrão de consumo energético da agricultura do agronegócio, salienta-se sua justificativa na intenção de facilitar o processo de implantação das agroflorestas em áreas maiores. A exemplo disso temos alguns depoimentos coletados em uma discussão promovida via rede social, onde Marcos e Júnia relatam um pouco sobre sua experiência de mecanizar uma agrofloresta com um pequeno trator e alguns implementos.

Conforme Marcos Vieira“nós estamos em Piunhi, região sudoeste de Minas, nosso plantio tá focado no café como a cultura principal, que é a cultura de tradição regional. Junto do café vem também espécies frutíferas e madeira também, é um primeiro experimento que começou com 1 ha e depois foi reduzido a metade para podermos entender melhor o comportamento e podermos avançar, demos um passa atrás pra poder seguir adiante com mais embasamento prático. Foi legal que está dando certo, com as observações da área podemos ver que aprendemos bastante sobre a implantação, estamos reformulando nossa “metodologia” de implantação avançando um pouco mais no entendimento operacional da implantação e manejo de forma a simplificar, reduzir a mão de obra e manter a estruturação do sistema seguindo a lógica do Ernst de manter os estratos e diferentes ciclos das espécies para termos um sistema dinâmico”

Agrofloresta sucessional mecanizada em Minas Gerais

Agrofloresta sucessional mecanizada em Minas Gerais

De acordo com Júnia Maria autora dessa imagem acima: “estamos fazendo uma experiência com agrofloresta com manejo praticamente todo mecanizado, se for pra ser em área grande a coisa tem que ser pensada para tal fim, todo o plantio tem que ser voltado para isso, pensando no manejo mais simples e mecanizado. Implantamos uma área de aproximadamente 1 hectare de agrofloresta sucessional com foco no café e madeira, no começo não foi fácil a implantação pela falta de experiência com o sistema mecanizado, mas a implantação foi rápida e agora com as coisas que observamos e aprendemos, sabemos que é possível implantar áreas maiores de agrofloresta sim, de uma forma relativamente simples, mais próxima do convencional no sentido do uso de trator, mas sem uso de nenhum insumo de fora, nem adubação nem controle de pragas nem nada de fora. Basta organizar a área de plantio para o uso de maquinas, fazer plantio em linhas, com espaçamento para passagem de trator nas entrelinhas, com espécies que cumprem a sucessão agroflorestal e que são de manejo mais simples, enfim. Tudo vem do próprio sistema, e com manejo mecanizado, a cada 2 – 3 meses, com o uso de um trator/roçadeira. Ou seja, de 4 a 6 manejos por ano, praticamente só com 1 pessoa fazendo algumas podas em espécies de ciclo de vida curto usadas principalmente para adubação (colocamos poucas espécies para poda manual justamente para não gastar mão de obra manual, e talvez para uma área maior nem precisaríamos colocar essas espécies). Bom, é fazendo que a gente aprende. Se tiver vontade e um pouco de experiência e uma terrinha na mão, dá pra plantar uma área maior sim! Quanto a questão da colheita, curto o sistema que o Ernst Götsch usa, que é dividir as colheitas com quem se dispor a trabalhar na colheita (uma parte do que for colhido fica com ele e a outra parte fica com quem colheu), assim geralmente ele não paga pela mão de obra da colheita e os colhedores podem comercializar por conta própria a sua parte dos produtos da agrofloresta. Mas no nosso caso ainda não chegamos nessa ponto da colheita precisar ser feita assim. E quem conhece um pouco de agrofloresta na prática sabe que quanto mais evoluído o sistema, menos trabalho se tem”.

Nesse sentido, é sempre interessante avaliar as escalas da implantação de uma agrofloresta.  Em outras palavras, quanto maior a área a ser cultivada, possivelmente, maior será a mão de obra necessária para implantação, para o manejo e a colheita, ou seja, maior será o gasto de energia de todo o processo. Digamos então que, hipoteticamente existisse uma grande área de 10 mil hectares de monocultura qualquer feita com veneno, adubos químicos e irrigação. Imaginamos ainda que essa área fosse designada pelo governo para uma conversão agroecológica baseada na agrofloresta com o objetivo de alimentar uma cidade com X número de habitantes. Se existisse esse projeto de conversão agroecológica fundamentada em um Sistema Participativo de Garantia (SPG) para atender uma determinada demanda regional de alimento, cujo principal objetivo é a inclusão social, a recuperação, a proteção e conservação ambiental no âmbito desse município.  Como poderia ser desenvolvido um projeto dessa amplitude? Conforme questiona Habib : “Como orientar um projeto de conversão agroflorestal para áreas grandes como numa fazenda de 10.000 hectares(…) Você saberia o que fazer”?

Essa é sem dúvida uma pergunta desconcertante para quem imagina agroflorestas em pequenas escalas ou vistos como o “Small Is Beautiful“. O Brasil é hoje um país de muita terra com pouco dono. Assim, pode parecer ‘algo próprio do sistema de sesmarias que comemora 500 anos’ afinal como pergunta Claudio Oliver: “E quem e por que alguém precisa ter uma fazenda de 10.000 hectares?” Embora ninguém deveria ser dono de áreas desse tamanho e uma das grandes desgraças no Brasil e no mundo é concentração crescente da posse de terra na mão de alguns poucos latifúndios que são responsáveis por tanta desigualdade social, o nosso exemplo parte do pressuposto hipotético, porque ele é pensado na possibilidade de transformação socioambiental de uma cidade, para que a população passe a viver, sentir, cheirar agrofloresta em todos os sentido.

Bom, pensando na pergunta de Habib,  Luiz Paulo Gnatta Salmon respondeu que ele: “faria um plantio mecanizado, em faixas a cada 6 metros ou mais dependendo do terreno, com consórcios mais simplificados pra facilitar o manejo, sempre pensando o que da bem no ecossistema local, plantaria a placenta que pagaria a implantação, junto das arvores frutíferas e as madeiras para o futuro do sistema… nas entrelinhas feijao ou milho ou arroz ou cana, com capim colonião, ou mombaça ou massai ou elefante, junto com crotalária… usaria uma roçadeira ecologica pra fazer o manejo do capim roçando a entrelinha e colocando a matéria orgânica no pé das plantas…. com o sistema evoluindo teríamos que pensar em pessoas bem capacitadas, que trabalham com amor e acreditam nos safs pra fazer o manejo e as podas… talvez até um tratorzinho com guindaste pra levar as pessoas… mas tudo isso daria alguns dias de discussão e planejamento… mas acredito ser possível sim! mas com a consciência que o ideal é fazer reforma agrária, áreas pequenas, cooperativas, o povo tomar consciência e fazer o êxodo urbano e viver de acordo com os princípios da vida… da pra fazer tudo isso ao mesmo tempo, as coisas não são para serem feitas… elas já estão acontecendo”.

Outra resposta que recebemos da EstAção AgroEcológica Borá sobre a pergunta de Habib foi: “primeira ação seria um inventário florestal. Chamaria mais pessoas para morar na terra e então definiria qual a intenção: preservacionista, subsistência… há varias formas de se sustentar da agrofloresta. Recursos madeireiros e não madeireiros. Hoje em dia estamos investindo mais em recursos não madeireiros (óleos, castanhas, sementes, atração fauna) em 2010, por exemplo, participamos de um projeto para agroflorestar quase 400ha no entorno do parque nacional da emas – Goiás. O agronegócio por lá é bruto. Iniciamos um pequeno plantio mecanizado de 1 ha com sementes de adubação, feito as contas vimos que avançaríamos em módulos e nosso limite seria a disponibilidade de sementes”.

Ainda segundo o pessoal da Estação Borá, eles relatam uma experiência de agrofloresta mecanizada no estado do Paraná. “Aqui no norte do Paraná estamos experênciando diversas formas de implantar agrofloresta. A primeira mecanizado ocorreu a 4 anos atrás. Erramos feio no espaçamento, noutro a geada pegou… mas a coisa engrena com o tempo. Temos pesquisado muito a mecanização. No inicio do verão 2012 utilizamos o podador de cerca viva para podar guandu, mamona, fumo bravo na agrofloresta que implantamos com frutíferas rústicas, araucária, peca, urucum… a roçadeira acoplada ao trator faz a limpeza no meio das linhas de plantio. em outra experiência utilizamos o trator apenas para acabar com o capim e adensamos de guando. plantamos então em linhas mudas que produzimos no viveiro. nesta experiência o trator não entra mais, apenas um homem e um podador mecânico”.

Enquanto nós discutimos nesse texto as possibilidades das agroflorestas em áreas maiores, formas de mecanização, elas já estão acontencendo no mundo todo e certamente no Brasil em áreas menores, normalmente desenvolvidas por pequenos agricultores familiares. As agroflorestas estão caminhando em uma velocidade de floresta. Ou seja, naturalmente, regenerando a cada passo, sob a luz do sol e com trabalho suado de agricultores que tem amor e carinho pela floresta e toda sua vida. Amor e carinho são essenciais para se aproximar desse diálogo.

Para concluir, devo apresentar uma última consideração a respeito da  ‘fome no mundo’ que motiva esse diálogo. Me parece que podemos instigar outra pergunta que foi posta por Claudio Oliver observando o passado, onde se pensava em “Como alimentar minha família, a comunidade ao redor e os vizinhos? E isso sempre deu certo”.  No meu entender, a agrofloresta emerge a partir da base familiar e evolui para outros níveis, como a rua, o bairro e até espirituais, tecendo relações com a natureza e com o próximo, de maneira solidária.

Com base nisso, vou arriscar mudar o sentido da discussão com outra pergunta. Se alguém fosse convidado a fazer agroflorestas em pequenas áreas que juntas somam 10.000 ha e estão divididas em propriedades entre 10 ha e até 200 ha no entorno de uma cidade com 50.000 habitantes? Saberia o que fazer?

São as perguntas que nos movem! O que nós sabemos, é que não precisamos de novos planetas para alimentar tantas bocas no mundo, sobretudo, não podemos continuar com o agronegócio, porque ele já está condenado. O que precisamos é de novos olhares para os agroecossistemas que já existem, observando nosso passado e aprendendo com os mais velhos. O segredo está na troca de sabedorias, no diálogo de saberes e no reconhecimento dos diferentes saberes.